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Professor Fábio Cantizano com braços cruzados
Esp. Fábio Cantizano
Excelência Operacional em Salas de Musculação
CREF: 16603-G/RJ

O American College of Sports Medicine (ACSM) sempre foi referência mundial em pesquisas e posicionamentos sobre exercício físico, seja para saúde, alto rendimento ou demais temas onde há posicionamento publicado pela instituição.

O que devemos ter em mente é que cada instituição tem objetivos e métodos consolidados de pesquisa, que nem sempre será 100% aprovado por todos os países, dadas as condições de públicos-alvo e formas de controle nas pesquisas utilizadas para a meta-análise.

O objetivo do presente post é analisar opiniões de profissionais (e também pesquisadores) renomadíssimos do Brasil sobre o documento do ACSM de 2026.

Os profissionais que analisaram o Posicionamento do ACSM de 2026

Este tem como base a Live realizada pelos professores Doutores Belmiro de Salles, Jonato Prestes, Charles Lopes e Paulo Marchetti.

Todos são grandes referências em treinamento de força e preparação física, cada um deles com mais de 20 anos de experiência como pesquisadores, assim como treinadores, atuando também como revisores técnicos de diversos periódicos científicos do mundo.

OBS: Enquanto boa parte idolatra gringos da pesquisa em treinamento, tenho Belmiro de Salles, Charles Lopes, Carlos Ugrinowitsch, Jonato Prestes, Roberto Simão e Thiago Matta, todos doutores, como minhas verdadeiras referências em suas áreas.

Mas nesta análise, apenas 3 das minha referências estão participando.

O Escopo do Posicionamento do ACSM em 2026

O escopo do posicionamento é a saúde pública em geral, não alto rendimento e demais objetivos, contemplando em boa parte dos estudos analisados um público não tão treinado e até mesmo iniciantes.

O documento salienta a importância da prática regular do treinamento de força em diversos objetivos, mas tê-lo como referência para públicos específicos pode tornar a transferência desse conhecimento em uma verdadeira armadilha.

Além de ter uma visão clara de saúde pública em geral, deixa de aprofundar diversas variáveis extremamente importantes, que dependem de vários fatores para tomada de decisão em prescrição personalizada.

É como se tivesse como objetivo “publicar para não deixar de publicar algo”, atualizando algo que não é publicado há muitos anos.

O Posicionamento do ACSM de 2026 é um verdadeiro “mais do mesmo”, mesmo tendo como autores as maiores referências do segmento, enfim.

Comparando com as referências com escopo mais direcionado

De acordo com os participantes da live, estudar de forma aprofundada artigos que tem foco em determinada variável ou objetivo, traz mais base para aplicação específica do que ter como referência o Posicionamento do ACSM de 2026.

No cenário atual, muitos profissionais não querem ler na íntegra artigos científicos para tirarem suas conclusões por diversos motivos:

  • Falta de tempo
  • Não dominam inglês instrumental para interpretação
  • Não querem investir todo esse tempo
  • Falta de conhecimento em metodologia para identificar falhas na publicação para não cair em armadilhas.

Diante desse cenário, aplicar 100% do que está no documento pode não ser produtivo e eficaz.

De acordo com Belmiro de Salles, ainda sobre escopo, os autores foram conservadores ao analisarem potência, intensidade e volume por nível de treinamento associados ao objetivo. Podemos afirmar que se trata de um texto genérico, mesmo sendo um documento extremamente valorizado mundialmente quando publicado.

Para Paulo Marchetti, o fator de impacto do periódico deveria ser menos importante do que a ciência propriamente dita. Tem muito artigo bom, bem conduzido em termos de metodologia, com mais rigor científico do que muitos publicados em periódicos mais renomados. Aí está mais uma armadilha, principalmente quando falta senso crítico de quem precisa estudar para aplicar a ciência no público final.

Ainda de acordo com Marchetti, a crise aumenta ainda mais com a revisão técnica dos textos, pois tem muito pesquisador doutor que está deixando de revisar textos, delegando a função para alunos de mestrado, comprometendo uma etapa de extrema importância antes da publicação.

Sobre o foco do material – Seria mesmo um posicionamento oficial esperado do ACSM?

Para Charles Lopes, o material não deveria ser um “Posicionamento”, justamente pela abrangência e falta de critério para públicos específicos, deixando uma ampla margem de interpretação, como número de séries para exercícios, sendo o volume pouco discutido (de fato).

Inclusive, ainda de acordo com Lopes, o volume indicado para iniciantes, dentro da margem de indicação, pode ser exagerado e desnecessário. Para iniciantes o foco da discussão deveria ser na técnica, aprendizado, coordenação intermuscular, ou seja, habilidades motoras que podem garantir uma boa base para treinos bem mais aprimorados no futuro.

O Posicionamento do ACSM de 2026 está como uma verdadeira receita de bolo, algo que não deveria ser aplicado sem boa capacidade crítica, criando no treinador a necessidade de buscar artigos mais específicos sobre a variável a ser entendida de acordo com o objetivo do praticante.

Para Jonato Prestes, o título da publicação, mesmo sendo do ACSM, já é um grande problema. Uma verdadeira mistura de capacidades a serem analisadas, sem que fique claro “pra quem é o que”. O que seria, de fato, “performance” no título do artigo?

No geral, pelos participantes da Live, há muitas falhas metodológicas importantes, levantando a suposição da publicação ser até mesmo um retrocesso científico.

Críticas mais direcionadas

Sobre volume de ao menos 10 séries por semana para cada grupo muscular, sem levar em consideração grupos musculares específicos, pode não ser tão útil e até mesmo improdutivo em casos de desequilíbrio muscular. Seria igual para todos? E quem tem grupos musculares menos desenvolvidos que outros? Posicionamentos deveriam levar em consideração fatores a mais.

Mesmo sendo um posicionamento de 2026, as referências utilizadas vão até 2024, deixando de considerar diversas pesquisas interessantes publicadas em 2025.

Sabemos que a construção de um material como este é complexa e que requer tempo, mas o máximo de atualização deveria ser prioridade.

Muitas meta-análises apresentadas tiveram poucos estudos de referência, mostrando um cenário cada vez mais comum, o de publicação de meta-análises (alta qualidade em termos de publicação) em comparação com artigos originais.

As meta-análises têm maior aceitação e são mais fáceis de publicar do que artigos originais, entretanto, deveriam ter mais estudos com objetivos semelhantes para aumentar ainda mais a qualidade da publicação.

Considerações finais

O único consenso é de que é melhor treinar de forma constante, mesmo alterando ordem dos exercícios, do que treinar sem constância com um plano bem elaborado (mal executado).

Estudar autores clássicos, que publicam sempre dentro das suas linhas de pesquisa, aumenta a probabilidade de aplicar a ciência mais próxima do real.

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