
CREF: 16603-G/RJ – Profissional de Ed. Física.
O PRONAP – Projeto Nacional de Academias Públicas, apresentado pelo Senador do Acre Sérgio Petecão, prevê academias públicas gratuitas para a população, já que nem todos têm condições de custear uma academia em busca de mais saúde e qualidade de vida, combatendo principalmente o sedentarismo e a obesidade.
Por mais que a população mais saudável desafogue um pouco o sistema único de saúde (SUS), nem todas as prefeituras têm condições de bancar esses projetos em suas cidades, mostrando a real necessidade do apoio federal na iniciativa.
Essencial: Devemos avaliar prioridades e questões que influenciam o sucesso do projeto, como orçamento, segurança e coordenação técnica com metas mensuráveis para destacarmos a real necessidade e eficácia do projeto.
Exercício físico deveria ser tema central de campanha quando o assunto é saúde pública, pois não influencia apenas a saúde física da população, mas também a saúde mental e produtividade de toda a nação.
População saudável e fisicamente bem desenvolvida produz mais e melhor.
O cenário Brasileiro que precisa de reflexão imediata
O projeto prevê locais seguros e gratuitos para a prática, embora o “entorno” mereça atenção.
As cidades contam com diversos espaços públicos para prática de atividades físicas com movimentos corporais mais próximos do natural, como caminhada, corrida, trilhas, enfim, atividades que podem ser tratadas não apenas como exercício físico, mas como lazer através do movimento. Parece pouco, mas já é um avanço.
Nem todos se adaptam ao clima de academia, mesmo sendo um espaço gratuito semelhante ao espaço pago. Muitos praticam exercícios para manter a mente em ordem (a saúde física vem por “tabela”). Parques, ciclovias, praias e praças são perfeitas para exercício físico e higiene mental. Exercício não precisa ser apenas “de academia”.
Mesmo eu sendo um dos maiores defensores da musculação, incentivo a prática de qualquer modalidade que tire a pessoa do sofá e a coloque em movimento pelo mínimo necessário para melhorar a saúde e qualidade de vida.
Saúde pra quem?
O grande problema é que a população carente, assim como as demais classes em grades cidades são reféns da falta de políticas públicas para tornar locais públicos seguros, possibilitando a constância na prática de exercícios físicos.
Enquanto não tivermos segurança nas vias e praças públicas, esses espaços serão inúteis.
Faz sentido criar mais espaços? Se utilizarmos os que já existem, seria seguro uma mulher se deslocar até lá às 21h, praticar exercícios e voltar pra casa com segurança?
Se perguntarmos para 100 mulheres se elas se sentem seguras para deslocamento na rua de noite, saberemos onde está o problema. Mesmo com alguma segurança, parques públicos como o Bosque da Barra no RJ e Ibirapuera em SP não garantem segurança em toda a sua extensão.
Qual seria o orçamento para criar academias públicas e qual seria o orçamento para tornar espaços públicos seguros?
Mesmo sendo mais em conta criar academias, isso não garante que a população utilizará o espaço, se não houver segurança (necessidade básica) para se deslocar até lá. Qual a prioridade? Se o objetivo é reduzir custo geral no SUS, não podemos tornar esse investimento um “elefante branco”. A academia pública deveria ser para pessoas que não conseguem pagar por uma, não para quem pode pagar por uma.
Qual seria o critério para matrícula?
A organização técnica por trás de tudo, além dos riscos
Por ser do Rio de Janeiro e profissional de educação física atuante em gestão, pude testemunhar um projeto de academias em praças públicas na década de 2010, com equipamentos adaptados.
Certamente foi “melhor do que nada” e realmente deu uma guinada na visão que a população, principalmente idosa, tinha sobre saúde através do exercício, mas algumas lacunas ficaram abertas, como:
- A orientação profissional era apenas em determinados horários;
- A gestão do espaço não era feita, necessariamente, por profissionais de educação física;
- Os equipamentos ficavam disponíveis (e ainda ficam) quando não há turmas ou profissionais coordenando as atividades, se é que todas as instalações ainda contam com profissionais em alguns horários.
Certa vez, na Praça Saens Peña, Tijuca, RJ, presenciei às 5:30h da manhã uma senhora de aproximadamente 70 anos usando o equipamento que simula uma caminhada, embora muitos chamem de simulador de elíptico. Ela estava de vestido, usava um sapato aberto com salto médio, realizando movimento pendular com as duas pernas, em vez de “passadas alternadas”.
O risco de acidente com queda de costas era bem alto. Em caso de acidente, de quem seria a responsabilidade? Se o projeto visa saúde e redução da pacientes por conta de doenças agravadas pelo sedentarismo, valeria o risco de acidentes pela falta de profissionais no espaço?
A educação como forma de prevenção
3 fatores influenciam em conjunto o custo anual da saúde pública, sendo eles o saneamento básico, o sedentarismo e a falta de conhecimento básico para prevenção de doenças.
O Saneamento básico é o maior causador de doenças agudas evitáveis (diarreia, dengue, leptospirose), afetando covardemente crianças e a população mais pobre. O sedentarismo é o maior causador de custos crônicos em longo prazo com tratamentos (hipertensão, diabetes, doenças cardiovasculares), embora parte dessas doenças surjam ou sejam agravadas pela falta de exercício e alimentação inadequada (em conjunto). A falta de conhecimento (letramento) agrava todo o cenário, atuando como um multiplicador silencioso, aumentando reincidências hospitalares.
Criar academias públicas para reduzir custos em saúde pública pode ser um excelente projeto, se for acompanhado de melhorias em saneamento nas comunidades carentes e campanhas educacionais sobre como evitar doenças (evitáveis) que tanto sobrecarregam o SUS.
Quem mais precisa de saúde pelo exercício, quem tem menos condições de pagar por uma academia é quem mais sofre com falta de saneamento a acesso a alimenbtos saudáveis.
Saneamento Básico como o “Chão da Saúde Pública”
A falta de saneamento básico em 2024 foi responsável por 344,4 mil internações por Doenças Relacionadas ao Saneamento Ambiental Inadequado (DRSAI), resultando em um desembolso de R$ 174,309 milhões para o sistema de saúde.
Antes de pensarmos em exercício físico, devemos pensar no básico. Do contrário, quem realmente precisa se exercitar e não tem condições de pagar uma academia, viverá em uma bola de neve. Lembre-se, o foco do Projeto de Academias Públicas para redução do sedentarismo e obesidade é a redução dos custos com saúde pública.
Evitar doenças “evitáveis” através do básico (dignidade através do saneamento básico) deveria ser prioridade. Como uma pessoa que se expõe a agentes nocivos e constantemente se interna por conta deles conseguiria manter uma rotina de exercícios?
Exercício físico só funciona se for feito com constância. Eliminar ou amenizar fatores que influenciam negativamente a constância deveria ser prioridade no projeto.
Exercício x Alimentação saudável
Exercício físico sem alimentação saudável previne prioritariamente dores e lesões no sistema locomotor. Por mais que a hipertensão e a diabetes sofram impacto positivo com a prática regular de exercícios físicos, alimentar-se bem e adequadamente é e sempre será a base para prevenção e tratamento de doenças.
Mesmo sendo uma população carente, a concentração de pessoas obesas e doentes por conta da obesidade se encontra nas comunidades carentes. O acesso a alimentos de baixa qualidade nutricional, processados diversos e com calorias de péssima qualidade gera um cenário alarmante. Nunca vimos uma população tão alimentada, mas tão pouco nutrida.
Seria possível realmente mensurar o impacto do exercício na obesidade, sendo que a população é extremamente afetada pela falta de saneamento e o acesso a alimentos de qualidade, assim como formas seguras de preparo?
A campanha completa
O que precisamos entender é: O exercício físico é excelente para saúde qualidade de vida, combate a doenças e demais benefícios, se o básico estiver na retaguarda. Somente assim a população conseguirá manter a constância na prática de exercícios físicos.
A entrada do governo em comunidades com serviço público, já que eles também são economicamente ativos, é essencial para reduzir custos no SUS, além de tornar a população mais produtiva.
Combater sedentarismo e obesidade é uma pequena parcela do que pode ser feito para tornar a população digna e mais produtiva.
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Cordialmente, Fábio Cantizano.




